Origens da ABCM e do SIMCAM
A pesquisa em Cognição Musical no Brasil ganhou, ao final de 2004, um espaço interdisciplinar próprio no âmbito dos eventos científicos.
Os professores Maurício Dottori e Beatriz Ilari idealizaram a realização de um evento que acolhesse trabalhos dedicados ao estudo da mente musical em diálogo com diferentes áreas do conhecimento — trabalhos que, em razão de seu caráter interdisciplinar, encontravam, à época, pouco espaço em outros eventos científicos.
A organização do I Simpósio Internacional de Cognição e Artes Musicais (SIMCAM) partiu, assim, de uma perspectiva ampla, envolvendo áreas como Linguística, Semiologia e Psicologia Social. Em sua primeira edição, a iniciativa contou com apoio financeiro da Fundação Araucária. O evento foi realizado de 31 de março a 3 de abril de 2005, na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba.
Os professores Rodolfo Coelho de Souza, Maurício Dottori e Beatriz Ilari foram os editores dos Anais do evento, publicados em um volume de 471 páginas. O primeiro SIMCAM alcançou grandes proporções, reunindo aproximadamente 600 participantes de diferentes partes do mundo.
No ano seguinte, os professores organizadores promoveram, novamente em Curitiba, o II Simpósio de Cognição e Artes Musicais, que acolheu exclusivamente trabalhos de pesquisadores brasileiros. A partir dessa experiência, decidiu-se intercalar edições internacionais e nacionais do SIMCAM, mantendo-se, contudo, a mesma sigla. Foi durante o jantar de confraternização do II SIMCAM que surgiu a ideia de criar a Associação Brasileira de Cognição e Artes Musicais (ABCM).
A primeira equipe responsável por conduzir a Associação e estabelecer suas bases filosóficas foi formada por Beatriz Ilari, Diana Santiago, Rosane Cardoso de Araújo e Zélia Chueke. Entre os primeiros objetivos estabelecidos para a ABCM estavam orientar e promover os encontros anuais em seu direcionamento científico, publicar uma revista científica anual para os associados e ampliar a projeção internacional dos eventos, articulando trabalhos no campo da cognição e da música.
Naquele momento, não se buscou estabelecer uma definição única de cognição musical, mas acolher e identificar as diferentes áreas do conhecimento que se aproximavam da articulação entre cognição e música. Um dos primeiros resultados significativos dessa proposta foi sua contribuição para ampliar a presença e a compreensão da cognição musical em outros eventos científicos da área de Música no país, como os congressos da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM) e da Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM).
Consolidação do SIMCAM e institucionalização da ABCM
Desde então, os SIMCAMs vêm sendo realizados em diferentes cidades brasileiras, graças à disponibilidade e ao empenho de inúmeros pesquisadores do país.
Em 2007, o III SIMCAM foi realizado em Salvador/BA, acolhendo um número significativo de participantes estrangeiros. Em 2008, a Universidade de São Paulo (USP), em São Paulo/SP, sediou o IV SIMCAM; em 2009, a Universidade Federal de Goiás (UFG) organizou, em Goiânia/GO, o V SIMCAM; em 2010, o VI SIMCAM ocorreu na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Rio de Janeiro/RJ; e, em 2011, a Universidade de Brasília (UnB) realizou o VII SIMCAM, em Brasília/DF.
Foi também em 2011, durante assembleia realizada em Brasília, que a disposição e a determinação das pessoas ali reunidas possibilitaram a eleição da primeira diretoria da ABCM. Coube a essa diretoria a incumbência de organizar o estatuto da Associação para o ano de 2012, bem como providenciar sua inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ).
A sequência dos encontros prosseguiu em 2012, com a realização do VIII SIMCAM pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), em Florianópolis/SC. Em 2013, a Universidade Federal do Pará (UFPA) realizou o IX SIMCAM, em Belém/PA; em 2014, o X SIMCAM ocorreu na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Campinas/SP; em 2015, a UFG voltou a sediar o evento, realizando o XI SIMCAM, em Pirenópolis/GO; em 2016, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizou o XII SIMCAM, em Porto Alegre/RS; e, em 2017, a UFPR voltou a receber o evento, em Curitiba/PR, com a realização do XIII SIMCAM. Nessa edição, a Assembleia da ABCM decidiu tornar o evento bienal.
Em 2019, o XIV SIMCAM foi realizado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande/MS. Em 2021, em decorrência da pandemia de COVID-19, foi realizada, pela primeira vez, uma edição do SIMCAM em formato integralmente remoto: o XV SIMCAM, promovido pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em Santa Maria/RS.
Em 2023, o XVI SIMCAM foi realizado no contexto do 1º Congresso Ibero-Americano de Psicologia da Música e Cognição Musical (CIPMUS), promovido pela ABCM em parceria com a Associação Espanhola de Psicologia da Música e Interpretação Musical (AEPMIM) e a Sociedade Argentina de Ciências Cognitivas da Música (SACCoM). A realização conjunta dos dois eventos ampliou o diálogo da ABCM com pesquisadores e instituições da comunidade ibero-americana.
ENCAM: ampliação dos espaços de encontro
Paralelamente ao SIMCAM, a ABCM promove também o Encontro de Cognição e Artes Musicais (ENCAM). Sua primeira edição foi realizada pela UFPR, em Curitiba, em 2006. Em 2018, também em Curitiba, o II ENCAM foi promovido pela ABCM em parceria com o Núcleo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares em Musicoterapia (NEPIM/Unespar), como evento conjunto (II ENCAM – V NEPIM). O III ENCAM, por sua vez, foi realizado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 2020.
Em setembro de 2024, foi realizado o IV ENCAM, em formato híbrido e multicêntrico, com sedes em Salvador (UFBA), São Paulo (Unesp) e Curitiba (UFPR). Ao longo de quatro dias, o encontro reuniu mais de 70 participantes e contou com 17 sessões de comunicações orais, quatro conferências e três mesas-redondas. Organizado em torno dos eixos “Cultura e criatividade”, “Conectividade: do cérebro aos algoritmos” e “Expertise e desempenho”, teve como um de seus destaques a conferência de abertura ministrada por Diana Deutsch. O formato descentralizado e híbrido ampliou o acesso ao evento e favoreceu a participação de pesquisadores de diferentes regiões do país.
Internacionalização e expansão recente
Em 2025, um importante marco na trajetória da ABCM foi a realização conjunta da 18th International Conference on Music Perception and Cognition (ICMPC18) e do XVII Simpósio de Cognição e Artes Musicais (SIMCAM 17), entre 21 e 25 de julho, em São Paulo, em formato híbrido. Pela primeira vez, a ICMPC foi sediada no Brasil e no Sul Global, reunindo 437 participantes de 32 países e 339 trabalhos científicos. Com o tema Echoes and Ecologies: New Landscapes for Music Perception and Cognition, o evento promoveu diálogos entre diferentes campos de investigação e contou com conferências, simpósios, workshops, apresentações orais e pôsteres, além de atividades que integraram pesquisa e prática musical. Sua realização ampliou a inserção internacional da ABCM e a visibilidade da produção científica brasileira, fortalecendo o intercâmbio e as redes internacionais de pesquisa em cognição musical.
Dando continuidade à realização dos ENCAMs, em maio de 2026 ocorreu a quinta edição do encontro, entre os dias 27 e 30, na Universidade Federal de Sergipe (UFS), em Aracaju. O V ENCAM reuniu 151 participantes e 61 trabalhos científicos e contou com 12 palestrantes, 21 sessões de comunicação científica, três conferências, três mesas-redondas, uma oficina prática e apresentações artísticas. Sua programação contemplou diferentes perspectivas sobre música e cognição, abrangendo temas relacionados à aprendizagem musical, performance, criação, inclusão, musicoterapia, neurociência e tecnologias aplicadas às artes musicais. Embora de abrangência nacional, o evento contou com autores provenientes de nove países, favorecendo o intercâmbio acadêmico e o fortalecimento de redes de colaboração científica.
20 ANOS DE HISTÓRIA
Publicações, comunicação e redes de colaboração
Ao lado da realização de seus eventos científicos, outras frentes de atuação da ABCM também se ampliaram ao longo desse período. No campo editorial, a revista Percepta consolidou-se como importante veículo de divulgação científica da área, alcançando o estrato A1 na avaliação da CAPES e ampliando sua presença em bases acadêmicas, de três para onze indexadores. Também foram promovidas atualizações em suas políticas editoriais e em seu Conselho Editorial, além da criação dos Dossiês Temáticos da Percepta.
A comunicação institucional e a presença digital da ABCM também foram fortalecidas, com a reorganização dos conteúdos e das funcionalidades de seu site e a criação de uma área exclusiva para associados, reunindo publicações, livros, entrevistas e palestras. Nesse período, houve ainda crescimento da base associativa e ampliação das articulações internacionais, fortalecendo a inserção da Associação em redes de pesquisa e a circulação da produção científica e artística de seus associados.

O próximo SIMCAM
Ao longo de sua trajetória, portanto, a ABCM vem consolidando espaços de encontro e intercâmbio científico, fortalecendo suas publicações e ampliando suas redes de colaboração no campo da cognição e das artes musicais. Essa trajetória terá continuidade em 2027, com a realização do XVIII Simpósio de Cognição e Artes Musicais (XVIII SIMCAM), que será sediado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em Sobral/CE, dando sequência ao percurso iniciado com a primeira edição do Simpósio, em 2005.